Quando o crime compensa

José Seráfico

Crera ter cometido o crime perfeito. O que os juristas chamam de prova material inexiste. O corpo da vítima jamais foi encontrado. As testemunhas, consideradas nos meios judiciários as prostitutas das provas, também se contradiziam. Umas viram o que outras não conseguiram ver; havia as que afirmavam ter ouvido palavras que não impactaram a audição de nenhuma das outras. Não se poderia falar de cheiro do que quer que fosse. Afinal, o cadáver não fora dado à exposição pública. Talvez dele só pudesse falar o autor do crime. Como sabê-lo, no entanto, se nem de mais que suspeita se poderia falar?

Mesmo o local em que o suposto crime teria sido cometido não deixava ver o menor rastro do presumido acontecimento. Uma só gota de sangue talvez bastasse para materializar a culpa. Ela não era encontrada. Um fio de cabelo, um pedaço de carne, uma unha arrancada, restos de uma cusparada – nada disso foi coletado pelos investigadores. Simplesmente, porque não haviam encontrado nada.

A vítima, porém, não aparecia. Policiais vasculharam todos os locais por ela freqüentados. Na casa em que morava, lembravam-se apenas de que saíra manhã cedo, como todo dia. A demora em chegar, ao fim da tarde, não os preocupara. Outras vezes acontecera o mesmo.

No emprego, todos ainda se lembravam da despedida da última sexta-feira. A alegria costumeira, a promessa de contar as peripécias do fim de semana. A ausência na manhã da segunda-feira era relacionada aos prazeres da véspera. Ao cansaço que resulta do desfrute de tantas emoções e sensações.

Exaustos do esforço vão, os investigadores encontraram a compreensão de seus superiores. Confessaram-se incapazes de atribuir mais que suposta culpa ao acusado. Este, em liberdade, repetia a cantilena dos administradores públicos e políticos: provem que matei aquela mulher!

Pareceu aos dirigentes da polícia restar apenas um caminho. Superar vaidades e convidar o acusado para uma conversa franca seria o mais prudente. Talvez daí resultasse algum benefício pessoal e institucional. Ganhariam a polícia, os policiais rendidos à evidência da falta de provas e, mais que todos os outros, o próprio suspeito.

Foi o que aconteceu. Reuniram-se todos, para pedir quase implorando que o acusado relatasse o que também aos policiais pareceu o crime perfeito.

Ao fim da reunião, o até pouco tempo antes dado como cruel assassino era admitido nos quadros da polícia. Seu talento e sua indiscutível criatividade (criminosa, é verdade - nem por isso menos criativa) supriam grande lacuna.

Pois é exatamente assim que o mercado, empresas privadas e governos vêm fazendo, com relação aos hackers da informática. Paralisados pela falta de condições de desvendar os crimes por eles praticados, fazem o que certo comentarista lembrou, dia desses: aliar-se ao inimigo, pois enfrentá-lo é temerário.

Quando todo e qualquer rastro de ética está ausente, o crime passa a ser virtude.

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