A Crise Mundial Revela Saudades da Ética e Moral

A crise econômica e social se alastra cada vez mais e começa a corroer o sistema econômico capitalista que parecia inultrapassável, definitivo, uma espécie de “deus” inventado pela ciência ou uma consciência transcendental idealizada por Hegel. Agora percebemos melhor que a queda das torres de Nova York não foi apenas um fato estrondoso e chocante, idealizado por Bin Laden, mas também é um sinal de tantos absurdos acerca da via que se instalaram nas cabeças dos homens e das mulheres de hoje.

De fato já chegamos a um ponto de grande cegueira por causa de tanta nebulosidade que nos cerca e nos intoxica. Os americanos também estavam cegos por causa de seu nacionalismo messiânico visto como instrumento para purificar o mundo considerado inimigo ou infiel à sua política. As torres derrubadas, as quase três mil vítimas envolvidas, são um dos sinais de confusão humanitária, de desentendimento camuflado, da tontura mental inconsciente que atingiu o ser humano desta época.

Quando a equipe da senhora Thatcher imaginou um novo mundo e colocou na praça a magia da globalização total, imaginava que essa seria a melhor forma de governar sem fronteiras, de unificar forças e gênios, de unificar as culturas e a economia; de reduzir o ser humano a um modelo único; de concentrar o poder não mais por via de eleições populares, mas pela concentração do dinheiro, pela capacidade de inventar armas mais secretas e poderosas do que as existentes no mercado. Sabemos que hoje a Inglaterra é o país do mundo que concentra o maior número de intelectuais e cientistas sacados aos países mais pobres da Ásia, do Oriente médio, da África, da América Latina e da Europa, inclusive da vizinha Irlanda porque são bem pagos.  Prefere gastar dinheiro atraindo e contratando os melhores cérebros do mundo já prontos para atuar nas novas tecnologias, em vez de investir em cérebros ingleses que não sabe que fruto vão dar nem quando. A preocupação é estar sempre na frente, custe o que custar.

A globalização concentrou o poder econômico e político na mão dos mais ricos com normas de funcionamento sofisticadas, umas públicas e outras secretas. Porque será que o Sr. Sarkozy dispensou sua ministra da economia rapidamente para que ela ocupasse o lugar da presidência FMI? Ele bem sabia que isso iria servir-lhe de canal informativo secreto e de favorecimento econômico. O grupo dos 5 se que se constituiu para coordenar a economia mundial, não deixa de tirar o maior proveito possível desse domínio, importando barato e exportando caro. Quem sabe, sabe. E quem não sabe deixa-se levar pela onda do sistema econômico injusto ou aceita ser afilhado para ter algum folar de vez em quando. Os mais pobres se contentam com um pouco de tudo: pouca educação, pouco profissionalismo, pouco rendimento e com muita dependência, às vezes sinalizada com queixas e lágrimas. Para manter essa sonolência mental inventaram-se os subsídios, os socorros nas desgraças, os discursos populistas e nacionalistas. O que devia ser um meio para criar igualdade de direitos e deveres, acabou sendo prato feito para os que mais enriquecem.

Mas o pior de tudo isto é que se desenvolveu uma sociedade convencida de que Deus não resolve nada. É verdade que ainda há alguns políticos e intelectuais que dizem acreditar em Deus, mas sem nenhuma ou pouca prática religiosa que comprometa a pessoa na ação profissional. Acredita-se num Deus que teoricamente exista, mas na prática não tem nada que se intrometer com a liberdade humana que se sente realizada quando goza de um bom lazer, de consumo que alimente o prazer, de bens que exprimam poder, de bem estar com segurança e abundância, de vida fácil sem conflitos etc. Uma sociedade onde Deus seja marginalizado torna-se muito subjetiva e egoísta. Passa a ter supremacia a lei do mais forte e do mais esperto, até nos tribunais. Sem Deus, os princípios da verdade, da justiça, da fidelidade, da coerência, da humildade se esvaziam. A consciência do pecado se transforma em consciência de que tudo é normal, tudo é permitido porque todo o mundo age do mesmo jeito. Se olharmos para as religiões que hoje mais crescem no mundo, vemos que são as que estão protegidas pelos sistemas políticos ditatoriais ou são manipuladas como ações milagreiras e fonte de dinheiro ou remédios psicológicos para gente problemática. As outras estão emagrecendo como a nossa. Nenhuma sociedade sem o Deus que é o senhor e criador de todas as coisas consegue viver em paz.  Todos os membros do G5 e do G20 estão de acordo de que é necessário reduzir a poluição rapidamente, mas ninguém quer renunciar à produção concorrencial para dominar o mercado e enriquecer.

Sem Deus não há moral, nem ética; sem moral nem ética não haverá paz, nem segurança, nem dignidade humana. A violência cresce, os presídios aumentam, os gastos com juízes e tribunais são cada vez maiores, a polícia por mais numerosa que seja, é insuficiente para dar segurança, para coletar os ladrões e os violentos.

Portanto, a crise que atravessamos não terá saída se não colocarmos o Deus como o eixo da história humana, como centro da vida pessoal. Não um Deus que restringe nossos anseios, desejos e afetos, sonhos e necessidades. Mas um Deus que nos ensina a valorizar todas as energias que temos para enriquecer o princípio fundamental e insubstituível da vida humana, o AMOR. O amor é o maior mistério e o maior valor da vida. O amor não tem cor, idade, cultura, sexo. Alguém pode até ter sido gerado numa circunstância de violência sexual, mas precisa sem dúvida crescer no ambiente de amor para ser pessoa com vida feliz. Amor é sobretudo dar-se, servir o outro. Não servir-se do outro. Amor é iluminar não desejo de ser atração de luzes.

Não é verdade que estamos num mundo onde tudo ou quase é negócio ou jogo? Inventam sistemas para evitar os roubos, mas os ladrões usam a mesma ciência para roubar sem serem apanhados. Não há sistema que possa evitar todos os tipos de roubo. Só a consciência reta e respeitosa do outro que está ao nosso lado pode dar-nos total segurança. Uma criança que cresce num lar onde os pais se amam, trocam gestos e palavras de amor, de perdão; onde estão presentes os símbolos religiosos que nos projetam para além da experiência humano presente; onde se dão as mãos para rezar; onde não se considera perda de tempo o ir à missa; onde a formação cristã da fé é procurada com zelo; onde não se buscam os sacramentos apenas por interesse festivo ou por medo que algo de mau aconteça; num lar assim Deus está presente, visível, perceptível e atuante com a sua graça. Sabemos que na vida feliz Deus não pode faltar.  Se faltar a felicidade vai durar pouco.

Mas esse modelo de família cristã mostrou sua debilidade perante o desenvolvimento da modernidade que modelou outros sistemas de vida nos quais emergem interesses voltados exclusivamente para o presente e cada vez mais martelados em nossos olhos e ouvidos pela propaganda da  mídia. Qualquer ser mal alimentado enfraquece. E assim também, a fé mal alimentada se enfraquece e pode até morrer. Devemos ter em conta que a fé é um dom, um sentido da vida, um ideal de vida em razão do qual tudo se mede e decide.

Qual a solução para tudo isso? Não existe receita pronta, mas há caminhos certos.

Pode-se tentar fazer como o filho pródigo que depois de ter esbanjado a herança que o pai lhe entregou e ter experimentado os desaires de sua liberdade, decidiu voltar para a casa do pai. A nossa Europa, depois da última guerra mundial, se tornou modelo de sociedade honesta, equilibrada, pacífica para o mundo inteiro. Nesse tempo, a dimensão religiosa tinha uma força de incidente na vida das pessoas e na sociedade. Com a euforia do bem estar e do consumo exagerado, numa igreja meio adormecida e com cristãos mal formados caímos no pântano da indiferença religiosa ou ficamos no nível de práticas superficiais. O Papa falou na Alemanha que precisamos “desmondanizar” a Igreja, ou seja, tirar-lhe esse rosto desumano e dar-lhe um rosto onde Deus seja perceptível. É a hora de acordar de vez, de arregaçar as mangas e pegar a sério no Evangelho e no Catecismo como base de uma vida cristã alegre, consciente e atuante como missionários e discípulos de Jesus Cristo. Se tivermos coragem para isso, as próximas gerações vão nos agradecer e louvar. E nós não perdemos o caminho do céu que nos foi prometido.

Joca/BOD, outubro de 2011
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