(Re)construção do mundo
Os acontecimentos políticos no Oriente Médio e a tragédia que se abate sobre o Japão não podem constituir apenas registro nos livros de história. Mais que isso, devem ser analisados articuladamente, de tal modo que lições sejam aproveitadas. Só desse entendimento poderão resultar providências capazes de melhorar a vida sobre a face da Terra.
Aparentemente, o terremoto e o tsunami dele resultante, que produziram milhares de vítimas em cidades japonesas são questões a preocupar apenas os ambientalistas e os profissionais das ciências biológicas. Isso não corresponde à verdade, todavia.
A magnitude dos abalos sofridos por aquela nação oriental aconselha discutir e perquirir a respeito das razões pelas quais tais fenômenos foram desencadeados.
Quase ninguém, leigo ou sábio, descarta a hipótese de influência de fatores absolutamente humanos a interferir no equilíbrio ecológico do Planeta. Assim, muitas das catástrofes que têm afetado diversos países, não importa onde se situem, parecem motivadas pelo mau uso que vem sendo feito dos recursos naturais. E pela utilização de outros recursos, inclusive a força de trabalho.
O esforço dos cientistas por compreender adequadamente o funcionamento do sistema planetário e indicar cautelas destinadas a mantê-lo em equilíbrio não tem bastado. Às vezes parece inglória a dedicação dos estudiosos, diante da voracidade com que se faz a exploração dos recursos naturais, ao mesmo tempo em que as decisões que poderiam limitar tamanha predação sofrem toda sorte de interferências, a corrupção com lugar destacado entre elas.
A imprevidência, para não dizer o descaso, tem grande dose de responsabilidade pelo que ocorre no Japão. Tal imprevidência, porém, atende a objetivos que, se não estão claros para o grosso da população, o são para os que ganham com ela.
Nação capaz de superar as conseqüências do experimento atômico dos Estados Unidos da América do Norte (1945), a terra do sol nascente se vê agora com tarefa ainda mais gigantesca. Pior, tem ameaçada a posição econômica de que desfrutava no cenário internacional, inclusive com o risco de vê-la cair.
O que foi feito com Hiroshima e Nagasaki, em 1945, a natureza se incumbiu de fazer agora, em Fukushima. As diferenças ficam por conta da velocidade com que os fatos passam ao domínio público, em escala planetária. Além disso, a crescente participação dos seres humanos nas práticas que levaram à tragédia.
No caso específico de Fukushima, pesa a opção japonesa pela energia nuclear. Torna-se difícil admitir ou validar qualquer argumento favorável a essa fonte energética, diante das conseqüências cujas reais dimensões sequer se pode agora prever. O fato é que, fosse outra a fonte de energia daquela cidade nipônica, seriam sensivelmente reduzidas as preocupações atuais.
No que concerne à ventania democrática que sacode os países do Oriente Médio, a revolta que culminou com a derrubada do governo tunisiano e logo se espalhou por outras nações merece atenta análise.
Pelo menos os que acreditam na possibilidade de maior entendimento internacional não podem perder de vista as perspectivas abertas, seja pela catástrofe do Japão, seja pela contestação às ditaduras daquele outro pedaço oriental do globo.
A aguda percepção de Karl Marx alertava para a necessidade de os proletários do Mundo unirem-se. A união deles, ignorando fronteiras nacionais, não só conferia caráter globalizador à luta de classes, como parecia forma eficaz à superação das desigualdades. Passam-se mais de 250 anos, desde que o filósofo alemão se manifestou, e sua advertência alcançou os ouvidos não daqueles que Marx previu, mas o de seus oponentes.
O fenômeno a que se tem chamado globalização - marcada e quase exclusivamente econômica - é revelador dessa oportuna audiência. Transpondo as barreiras dos estados-nações, os capitais transitam com enorme e célere desenvoltura. Aqui e acolá, atiram-se a atividades extraordinariamente lucrativas, em processo avassalador de acumulação jamais conhecido.
É muito em razão desse processo, avassalador em múltiplos sentidos, que são gerados fenômenos “naturais” e sociais como aos que estamos assistindo.
Se a opressão e as desigualdades sociais estão intimamente ligadas às formas de apropriação da riqueza abundantemente produzida, menos vigorosa não é a ligação dessa apropriação com as tragédias de que o Japão ora dá o exemplo.
Os cientistas suspeitam de que a escassa consideração dispensada aos problemas ambientais responde por quase todas as manifestações hostis da natureza. Furacões, terremotos, maremotos, deslizamento de terras, poluição dos cursos d’água, contaminação pos dióxido de carbono, chuvas ácidas não ocorreriam, caso as políticas públicas se preocupassem com a saúde ambiental.
Do ponto de vista social, as restrições à liberdade, a iníqua distribuição da riqueza, a privação da participação de amplas camadas nas decisões, aliadas à acirrada competição característica do processo econômico predominante redundam em episódios como os que vêm se manifestando na Tunísia, na Líbia, no Iêmen e na Arábia Saudita, para ficar apenas nesses exemplos.
Ora, diante de tudo isso, vale extrair algumas pistas do que pode ser o mundo, amanhã. Sem qualquer pretensão a pitonisa ou profeta, mas entendendo que o futuro da sociedade é construção dos que dela participam, arrisco sugerir a reflexão sobre alguns aspectos que emergem do processo social em curso. Faço-o, esperando menos o aplauso e a adesão a todos eles, mas a discussão honesta e comprometida, sobretudo com um mundo menos desigual, digno dos filhos e netos que teremos deixado na Terra.
Eis os pontos para os quais solicito atenção:
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As decisões políticas condicionam a conduta dos homens, em qualquer ponto da Terra.
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As decisões políticas são tomadas segundo uma teia complexa de interesses, correspondentes aos objetivos/sonhos/aspirações/crenças dos diversos segmentos que compõem a sociedade.
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As relações sociais se têm estabelecido, sobretudo, tendo em vista a apropriação da riqueza, do que resulta selvagem competição pelos bens existentes, naturais e produzidos pelo homem.
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Fronteiras físicas entre países/regiões não bastam para reduzir o impacto da globalização, em todos os campos de atividades e relações humanas.
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O sistema econômico global, a persistir nas atuais práticas, conduzirá o Planeta à exaustão de muitos dos seus mais nobres recursos, com o comprometimento da vida das gerações que nos sucederão.
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Devemos caminhar para um governo global, como a entender que a sociedade humana está acima das diferenças nacionais, regionais, raciais e de qualquer outra ordem.
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Um sistema econômico compatível com a sociedade globalizada significa a exigência de complementaridade, ao invés da competição.
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Metodologicamente, tal modelo há-de ser suportado por abrangente processo de planejamento, que leve em conta as potencialidades, disponibilidade de recursos (naturais, humanos, tecnológicos etc.) e necessidades da sociedade humana.
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Assim, a construção de uma nova sociedade depende de alterações profundas nas formas de relacionarem-se os seres humanos entre si, as diversas sociedades e culturas, e nos próprios conceitos que compõem o quadro valorativo a que nos vinculamos.
Alguns dirão tratar-se de utopia. Outros lembrarão inúmeras tentativas de chegar a uma sociedade solidária e fruidora de paz. Resta, no entanto, insistir: a sociedade tem a cara dos que dela participam.
A crença na possibilidade da criação de um homem novo, como a têm proposto todos os revolucionários, desde Jesus até Che Guevara, é a mola propulsora de um mundo novo. A tecnologia, então, servirá ao homem, não será por ele servida. O valor da riqueza estará nas possibilidades de bem-estar oferecidas, não no desfrute individual, acintoso e humilhante.



